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Quinta, 25 Setembro 2008 00:46   
Tropa de elite
Avaliação: / 2
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Cultura

tropa_elite.jpgUm Urso de Ouro no festival de Berlim é uma chancela que costuma permitir aos cinéfilos do mundo inteiro uma garantia de qualidade. Mas desta vez, o prémio que o filme de José Padilha “Tropa de Elite” levou para o Brasil não chegou para evitar uma imensa polémica sobre o filme.

“Tropa de Elite” conta, na primeira pessoa, a vida do capitão Nascimento (Wagner Moura), um operacional do BOPE, uma espécie de super-polícia que existe para intervir nos casos mais extremos e, sobretudo, mas favelas do Rio de Janeiro. Mas o duro capitão está a viver um momento de stress extremo e espera abandonar a polícia antes do seu filho nascer. Mas para abandonar o BOPE, Nascimento tem de conseguir encontrar e formar um sucessor. Entretanto, o capitão é seleccionado para participar da operação que combate as drogas num morro, pouco antes da visita do Papa, que pretende dormir perto do local.

Paralelamente, o capitão dirige as acções de formação dos novos recrutas do BOPE, onde vai cruzar dois espécimes raros: dois polícias honestos. Neto (Caio Junqueira) e André (André Ramiro) são dois  caloiros que um dia se cansam da corrupção que envolve a corporação e, por um golpe do destino, tentam integrar a “tropa de elite”.

O filme de Padilha é de uma violência extrema. Mais realista que “Cidade de Deus” – a comparação entre os dois filmes é inevitável – a obra de Padilha não se debruça verdadeiramente sobre a vida dos habitantes das favelas, mas interessa-se pelo que vai na cabeça dos agentes da polícia. Talvez por isso, “Tropa de Elite” tenha sido criticado por uma boa parte da sociedade brasileira como “um filme fascista que justifica a violência policial”.

É verdade que o filme segue os movimentos do capitão Nascimento e é ele que narra os acontecimentos, mas Padilha consegue – apesar disso – não tomar partido e deixar opções aos espectadores. Sim, a violência existe, mas cada membro da plateia deste filme pode mostrar-se mais ou menos compreensivo com os excessos dos agentes da autoridade. Diga-se que os polícias também não ficaram muito satisfeitos com “Tropa de Elite”, acusando Padilha de mostrar uma corporação totalmente corrupta.

O risco maior deste filme é a possibilidade de ser interpretado como um documentário. As filmagens de câmara ao ombro reforçam essa sensação e muitos espectadores podem confundir misturar realidade e ficção depois de abandonarem os cinemas. A impressão que nos fica durante o filme foi confirmada há alguns anos pelo realizador que disse que o projecto de “Tropa de Elite” tinha nascido como um documentário – mas que se tornara uma ficção pelo simples facto de Padilha temer que se fizesse um documentário, o filme poderia transformar-se num projecto póstumo, pelos riscos de tal empresa.

Em Berlim, durante o festival, alguém criticou “Tropa de Elite” por ser “mais um filme de favelas”. De facto, os maiores êxitos do cinema brasileiro têm como pano de fundo os bairros pobres, mas será isso um defeito? A realidade das favelas toca milhões de brasileiros e pela sua complexidade inspirará ainda muitos mais trabalhos cinematográficos. Talvez estejamos a assistir à criação de um género: como a América teve os seus westerns, o Brasil tem direito a ter os seus “filmes de favela”.

“Tropa de Elite” de José Padilha, com Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro e Fernanda Machado.


Raúl Reis

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Actualizado em ( Quarta, 24 Setembro 2008 19:48 )
 

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