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Como é que, em dez anos, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS), situado no periférico Portugal, nos confins da Europa, se tornou uma instituição de referência entre os congéneres a nível mundial?
O modelo de financiamento é uma das justificações apontadas pelos responsáveis de Serralves para este fenómeno.
A Fundação foi instituída, desde o início, como uma parceria público-privada equilibrada entre o Estado, que assegurou 50 por cento do capital, e a sociedade civil - um conjunto de cerca de 50 empresários que cresceu para 172.
“Desde logo ficou assente que o essencial da gestão ficava a cargo dos privados, respeitando o Estado a autonomia e independência da instituição”, disse à Lusa o presidente da Fundação de Serralves, António Gomes de Pinho, convicto de que o bom funcionamento se deve “à forma como a Fundação nasceu e às pessoas que estiveram envolvidas na sua criação”.
O presidente cita a este propósito o primeiro presidente, João Marques Pinto, que reuniu o conjunto de fundadores, e Teresa Patrício Gouveia, na altura secretária de Estado da Cultura.
Outro facto assinalável é a ausência de tensão entre o Estado e a Fundação, apesar do grande número de governantes que se sucederam nos últimos 20 anos.
O director do Museu, João Fernandes, atribui esta situação “ao modelo de gestão e ao extraordinário bom senso dos governos, que souberam sempre respeitar a autonomia da instituição. Nunca houve qualquer problema com qualquer ministro ou governo”.
“Mantemos uma absoluta liberdade relativamente aos nossos patrocinadores, seja o Estado ou os mecenas. Jamais os contributos das empresas têm afectado o trabalho que fazemos”, acrescentou.
Considerou ainda que, neste aspecto, Serralves “é um modelo para as instituições portuguesas e mesmo internacionais, quanto à autonomia da programação”.
Para Gomes de Pinho o êxito da fundação deve-se também ao facto de ter vindo preencher um vazio no país, já que “no momento em que Portugal aderia à então Comunidade Europeia, não havia um museu de arte contemporânea em Portugal, nem obras dos grandes artistas da segunda metade do século XX acessíveis ao público, uma situação inaceitável”.
O objectivo traçado era claro: havia que suprir essa lacuna e reunir uma colecção de arte contemporânea para a transmitir às gerações seguintes.
“Penso que estivemos à altura e cumprimos a missão, tanto do ponto de vista cultural como de gestão”, afirmou.
Para Gomes de Pinho, Serralves prova que a gestão cultural pode ser um exemplo para a gestão em geral.
“A cultura é um sector em si muito difícil. Estamos a gerir dinheiro do Estado e dos fundadores, que tem que ser administrado com muito rigor. Conseguimos uma equipa muito profissional que organizou uma programação de grande qualidade e tornou-a acessível ao grande público”, afirmou.
João Fernandes confessou que a maior surpresa que teve no percurso de Serralves “foi a extraordinária recepção e curiosidade com que a comunidade acolheu a programação do Museu”.
“Sabíamos que este museu seria uma experiência pioneira na apresentação de arte contemporânea em Portugal, porque não havia hábitos adquiridos e as escolas estavam distantes dos museus. O Museu fez um grande esforço de comunicação, mas houve, sobretudo, uma resposta extraordinária por parte da comunidade”, afirmou.
João Fernandes sublinhou que “é muito pouco frequente um museu superar em visitantes o número de habitantes da sua cidade e isso aconteceu com Serralves que teve mais de 400 mil visitantes em 2008, mais do que os habitantes que o Porto tem”.
“O público surpreendeu-nos sempre. Quando começámos o Serralves em Festa, esperávamos, nas nossas melhores expectativas, 20 mil pessoas, apareceram 40 mil. No ano passado estiveram aqui 80 mil”, frisou.
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