Este drama no Bairro Padre Cruz, na capital portuguesa, podia muito bem ser no Grund, em Gasperich, no Brill ou em qualquer bairro social do Luxemburgo.
A mãe coragem, Márcia podia ser qualquer Maria, dona de casa ou « femme de ménage », a Ivete, qualquer tia zelosa e amiga dos sobrinhos, como tantas que conhecemos por aí, quanto à jovem Claudia, estudante universitária, certamente que todos nós conhecemos várias jovens com este perfil, quanto ao « enfant terrible » o Joca, infelizmente é o caminho pisado por alguns jovens com os quais nos cruzamos diariamente e que infelizmente se deixam levar por caminhos menos dignos.
Em qualquer parte do mundo a realidade dos bairros sociais bate-nos de frente, com muitos dramas que as pessoas vivem diariamente, através de historias como esta passada num dos bairros problemáticos de Lisboa. Já em outros filmes rodados em Lisboa, como por exemplo "Zona J", temos um retrato contemporâneo da exclusão e pobreza social, onde o flagelo da droga está presente.
É uma breve passagem por um mundo que coabita mais ou menos connosco, mas a que ninguém, ou quase ninguém presta atenção.
Pessoas simples, pobres e sem cultura, expostas a uma sociedade onde nem sempre a justiça prevalece.
Uma sociedade onde cada vez mais a justiça não é célere e por vezes é fraca com os fortes e forte com os fracos, a educação não cumpre o seu papel de promoção social, e não permite o acesso igual aos diversos extractos sociais, onde a distribuição do trabalho e da a riqueza é cada vez uma miragem...
Podemos ver neste filme o amor incondicional tão presente em tantas famílias que conhecemos, a força e a coragem das mulheres, as mãescoragem que se sacrificam pelos filhos, capazes de tudo para garantir um futuro melhor, quer sejam mães verdadeiras, mães de substituição, ou mesmo as tias ou avós, capazes de tudo, para garantirem que eles não destruam a suas vidas e para que sejam felizes.
Este filme mergulha-nos na complexidade da vida que é tudo menos a preto e/ou branco, mas quase sempre definida por cambiantes de cinzento, e que neste caso concreto, muito mais próximo da realidade do que da ficção.
“Povo, substantivo masculino, seara humana à mesma intensa luz” Miguel Torga
Comemorar o 10 de Junho em 2013, em plena crise nacional, impõe-nos um dever de reflexão que vai para além da dimensão comemorativa de um “acontecimento” que se inscreve num calendário oficial. Antes de mais importa reconhecer que Portugal atravessa hoje uma grande crise, só comparável às grandes crises nacionais de 1383-1385, de 1578-80 ou de 1807-1811. A todas elas Portugal sobreviveu, pagando o elevado preço de indizíveis sofrimentos. Mas não compreenderemos a crise actual se a não colocarmos no contexto do nosso devir nacional e da nossa posição mundial, hoje absolutamente determinada pela nossa inserção na Europa, ela própria continente e civilização em irreversível declínio.
A narrativa económica desta crise torna opacas, mais do que esclarece, a sua origem e reais dimensões, que plenamente eclodem no campo económico, social, cultural, institucional e político sem que para tais calamitosas consequências pareça haver cabal explicação ou remédio.
Suspeito que a maior parte daqueles que ocupam hoje maioritariamente o espaço público, na televisão sobretudo, mas também no restante e imenso espaço da comunicação, ou os altos cargos institucionais, nunca tenham lido Camões. Não será por isso descabido falar de Camões, no dia que precisamente comemora o ritual da sua morte e ascensão enquanto vate da Pátria: Luis Vaz de Camões, príncipe dos poetas portugueses, de que é incerto até o lugar do nascimento, mas que podia ser, por antonomásia, Portugal inteiro.
Camões desempenha na nossa cultura, e até na nossa história política, um lugar invulgar e central, pelo menos de há trezentos anos a esta parte. Porque Camões foi sempre, nas grandes crises depois do desastre de 1578, a caução do sentimento nacional, a arca da aliança das nossas travessias do deserto. Camões é a fala de Portugal em nós.
Só temos de ler e escutar Camões, para compreendermos como ele é nosso contemporâneo. Náufrago real da foz do Mécong, de onde resgatou o manuscrito dos Lusíadas, Camões fala-nos do grande naufrágio, simultaneamente real e simbólico, da nau portuguesa, nos cabos tormentosos, e do naufrágio daquele rei que, na metáfora de Borges, se perdeu num mar de areia. Hoje naufragamos nós, nas margens do Tejo, rio da nossa salvação, e da nossa perdição. Camões foi testemunha da morte de Portugal. Não foi ele que exclamou no estertor da morte: “morro com a Pátria”? Havia de ressurgir com ela.
Por isso Camões sempre encarnou e encarna esta maneira complexa de sermos Portugueses. O Camões de Goa, onde esteve preso por dívidas, da China, onde viveu miserável, do Mécong, onde sobreviveu ao naufrágio, esse Camões somos nós, enquanto povo de emigrantes. Ou de falsos emigrantes, no dizer sempre lúcido de Eduardo Lourenço. Pois nós, Portugueses, nunca deixamos Portugal. Um homem que eu conheço emigrado no Luxemburgo vai para mais de um quarto de século fala-me assim: “lá onde eu vivo, à estrada da Pedrulha, em Coimbra”. Esse homem nunca deixou Portugal, ou, para usar uma frase camoniana, “os campos do Mondego”. Aqui está, há mais de 25 anos, Homem suspenso no seu hiato existencial.
Esse homem somos nós, os Portugueses, falsos aventureiros de um mítico império, que, na nossa real diáspora muito menos imperial, encarnamos a fala de Camões, ou a do marinheiro da gávea, do poema de Régio: “Ai que lindeza tamanha, meu chão, meu monte, meu vale!”
Espalhados pelo mundo, demandamos a Hespéria e, na estrada da vida como na estrada do sonho, é ela que procuramos já no próprio acto de a deixar.
Como nas grandes crises, temos hoje de salvar Portugal. Mas entendamo-nos, sem metáforas: salvar Portugal é salvar o seu Povo, os seus homens e as suas mulheres, os seus jovens e o seu futuro, é defender os seus operários e camponeses, os seus intelectuais, as suas instituições republicanas, as suas tradições e a sua ordem jurídico-constitucional. Parece obsoleto o discurso dos que agora falam, sem dúvida hipocritamente, em “restauração” da independência nacional, como se tivéssemos sido invadidos, e parecendo ignorar que a “independência nacional” foi um conceito que apenas operou historicamente por oposição à grande nação vizinha. Hoje o problema não se pode colocar assim, em termos de oposição nacionalista. Salvar Portugal, vencer a crise, é outra coisa: é salvar o chão e o pão. “Restaurar” Portugal condenando o seu Povo, negando-lhe os seus direitos históricos e inalienáveis ao chão e ao pão, não seria patriotismo nenhum, mas traição infame à Nação de quase 900 anos que somos. O patriotismo de hoje tem de basear-se na defesa da ordem constitucional – em que avultam os direitos fundamentais dos cidadãos portugueses, como a liberdade, a igualdade, o direito à saúde, à educação, à habitação e a condições de vida e de trabalho dignas e humanas. Nenhum regime político sobreviverá em Portugal se não respeitar a soberania originária e inalienável do Povo Português.
No dia de Camões há que lembrar, mais em jeito de convocação do que de provocação, apenas verdades essenciais: nós somos Portugueses e queremos continuar Portugal. Como Portugueses, tudo devemos fazer por Portugal.
Acabo de ler no wort.lu que o Islão é a segunda religião no Luxemburgo.
Confesso que a novidade logrou convocar todo o meu espanto.
Eu tinha para mim, isto empiricamente, como é óbvio (não tenho por hábito ler as mijadas dessa autora, essa tal estatística), que a segunda religião do Luxemburgo eram os carraços alemães, percentualmente precedida, coisa ligeira, pelo dinheiro, religião oficial do burgo.
E eu que numa conversa há dias tinha dito a um amigo meu americano que os templos com maior número de fiéis neste país eram os stands da BMW...
O PS apresenta hoje esta iniciativa para dar um contributo para acabar com a descrença que se instalou no país e ajudar o Governo a ganhar consciência que tem de agir para contrariar os elevados fluxos migratórios, entre outras coisas, porque poderá estar em causa a sustentabilidade económica a médio prazo, como alertou recentemente o Banco de Portugal.
Aparentemente este alerta caiu em saco roto. E, no entanto, os sinais de alarme provocados pelo aumento brutal da emigração têm-se multiplicado nos últimos tempos: sangria de médicos e profissionais de saúde, de engenheiros e arquitetos, de profissionais especializados nas mais diversas áreas, empurrados por um empobrecimento generalizado e por uma asfixiante situação económica, social e fiscal.
Depois de o Governo ter tido a infeliz ideia de apelar aos portugueses para emigrarem porque não havia lugar para todos, a descrença instalou-se de tal maneira que não há hoje quem não pense emigrar. Já bastam os mais de cinco milhões de portugueses espalhados pelo mundo sem que o Governo lhes dê a atenção que merecem, investindo em políticas sólidas que os valorizem e reconheçam a sua importância para Portugal
Nós não aceitamos que os portugueses sejam empurrados para fora do país. Queremos que o Governo se esforce, como é seu dever, para criar condições para ficarem, porque esse é o primeiro direito de cada cidadão: o de ficar junto dos seus e de quem neles investiu para que possam pôr a sua energia criadora ao serviço do desenvolvimento.
Queremos que tudo seja feito para que os nossos cidadãos tenham as mesmas oportunidades que lhes são oferecidas noutros países, o que também proporcionará aos que partiram a possibilidade de regressarem para aplicarem a sua experiência em Portugal, tal como o próprio Presidente da República defendeu nas últimas celebrações do 5 de Outubro.
A recomendação que aqui apresentamos é um alerta para a necessidade de estancarmos a acelerada perda de recursos qualificados, que segundo a OCDE rondará os 20 por cento. Não podemos ficar impávidos a vê-los partir, como uma fatalidade, numa repetição dos anos mais negros da história da nossa emigração. Pela inação não resolveremos os problemas do presente, pelo contrário, estaremos a criar outros bem mais graves que poderão comprometer o nosso futuro.
Não afirmamos aqui nenhum preconceito em relação à mobilidade profissional, tal como não esquecemos os que emigram com menos qualificações. Todos fazem falta. Queremos apenas alertar para um estado de espírito aterrador que leva a que sete em cada dez universitários admita a possibilidade de abandonar o país depois de concluir os estudos, por não encontrarem empregos compatíveis com a sua formação, porque os salários são baixos ou não vislumbram perspetivas de carreira. Um estado de espírito que leva também a que cerca de 75 por cento dos trabalhadores no ativo aceitassem sem hesitar uma oferta de trabalho no estrangeiro.
Os desempregados ultrapassam um milhão, cerca de metade dos quais nem sequer tem direito a quaisquer apoios. E 42 por cento são jovens. A precariedade entre os diplomados tem aumentado a olhos vistos e os salários que lhes oferecem são indignos. Isto é socialmente insustentável e conduz a um inaceitável desperdício dos nossos recursos humanos, que são cobiçados em muitas partes do mundo pelas suas qualidades e competência.
Estes dados são o retrato de um país derrotado e de um povo pronto para lhe virar as costas, que não podemos permitir que se agrave. O Governo tem de investir com convicção e empenho no crescimento e em políticas ativas de emprego para contrariar a emigração em geral e os que têm qualificações académicas ou profissionais em particular. E tornar eficazes os programas que poderiam ajudar a combater estes problemas, que estão muito longe de dar uma resposta satisfatória. A Garantia Jovem, que o secretário-Geral do PS e os socialistas europeus tanto defenderam, e que finalmente foi aprovada pelo Conselho Europeu mas que esta maioria começou por rejeitar, poderá ser muito melhor aproveitado para atenuar o grave problema dos mais de 166 mil jovens desempregados.
Como sempre acontece com a emigração, uma grande maioria dos que partem são jovens, o que, além de acentuar a nossa já dramática situação demográfica, vai atingir a nossa capacidade inovadora e de transformação da sociedade. Ninguém, mas principalmente o Governo, pode ficar indiferente a esta situação. Há que agir agora, para que os nossos filhos possam viver no país onde nasceram, como é próprio das nações verdadeiramente desenvolvidas.
Disse!
Cada vez que se ouve um noticiário em Portugal fica-se sobressaltado a cada instante.
Já escrevi muitas vezes que a comunicação social em Portugal, baseada no conceito da liberdade de expressão, em vez de acalmar a população portuguesa, pois vivemos tempos difíceis, prefere contribuir para acelerar o "stress" ou o "burnout", contribuindo assim para que a crise tenha um maior impacto negativo sobre todos nós.
Esta forma de actuação já levou muita gente a deixar de ler, ouvir ou ver as notícias dos vários órgãos da comunicação social, pois a auto-estima dos portugueses é ali posta em causa pelas mentes perversas de quem prepara ou faz os noticiários ou que fabrica as notícias.
Procura-se sempre a confrontação, a interpretação abusiva, o descaramento obsessivo e doentio, a má fé, para fidelizar os leitores, os ouvintes ou os telespectadores aos interesses de quem transmite as mensagens.
Ultimamente o que se tem dito e redito sobre a "TSU dos Grisalhos" na opinião de Paulo Portas revela toda a ignomínia duma comunicação social terceiro mundista e mentirosa.
A televisão chega a pedir a opinião de dinossauros da politica portuguesa, como um tal Mário Soares, senil e caduco, para opinar sobre a possível demissão do MNE e, com ele, a queda do governo.
Os socialistas estão ansiosos por voltar ao poder e utilizam todas as artimanhas da baixa política, desprezando os esforços para a recuperação do país,apenas interessando a conquista, de qualquer forma, do poder.
O senil opina sobre a humilhação sofrida por Portas, como se isso fosse importante para o país.
Um outro socialista, um tal António Costa, a eterna esperança socialista para substituir um frágil e inseguro Seguro, também diz que o limite traçado por Portas sobre o assunto em causa só pode ter um desfecho, isto é, a demissão do MNE, se for adoptada a TSU sobre os reformados e pensionistas.
Do mesmo modo, um tal Pacheco Pereira voltou ao seu posicionamento do antigamente, deixando de ser PSD para voltar ao seu querido MRPP, com criticas desabridas ao governo.
Mesmo que Portas declare solenemente que a TSU é apenas a última opção e que ele é "politicamente incompatível com a TSU" e que há outras medidas que poderão evitá-la, a comunicação social mórbida insiste que há uma nova crise no seio da coligação governamental.
Por vezes, surge na hipócrita comunicação social os elogios a Portas com o fim de ser atingida a reputação do Primeiro Ministro. Portas tem posições de "figura de estado", de ser o único a compreender a politica, de ser o homem certo no lugar certo, etc., etc. A "massagem ao ego" de Portas é mais uma das hipocrisias da comunicação social abrilina.
Para Portas o nosso Portugal está em primeiro lugar e as tricas da comunicação social imbecil apenas servem para reforçar a preocupação pela crise em que o país está mergulhado.
Exige-se à comunicação social portuguesa que forneça notícias que visem a auto-estima nacional.
A continuar a preferência pelo sangue, não nos surpreenderá as dificuldades financeiras dos vários órgãos da comunicação social.
O filme “La cage dorée” apresenta os Ribeiro, uma família emigrada típica. Vivem em Paris onde têm os seus hábitos e as suas relações; são trabalhadores e - como se diz nos países francófonos - estão perfeitamente integrados.
José trabalha nas obras (como todos os portugueses, não é verdade?) e é o braço direito do seu patrão (como todos os portugas, como sabemos).
A mulher do senhor José Ribeiro, chama-se Maria, como todas as portuguesas, aliás. Além disso, Maria é porteira, como uma enorme maioria, para não dizer todas, as portuguesas a trabalhar em Paris.
O casal tem, obviamente, filhos que estão totalmente integrados (como, recordo, se deve dizer em França e também aqui no Luxemburgo) até porque têm relações de vários tipos com franceses a sério.
Esta vida idílica de trabalho é perturbada quando o senhor Ribeiro recebe uma carta que lhe anuncia a morte do irmão que tem uma quinta no Douro, uma exploração que permitirá à família inteira viver confortavelmente em Portugal.
Como qualquer português, os Ribeiro decidem guardar segredo para eles para evitar invejas desnecessárias. Mas como todos sabemos, entre portugueses, o segredo vai ser conhecido mais rapidamente do que o estimado leitor possa dizer "herança".
Ruben Alves, o realizador de “La cage dorée” é filho de portugueses que emigraram para França. Trata-se de um desses portugueses como todos os outros, só que este faz cinema. Como dizem os críticos franceses desde que saiu "La cage dorée", "a minoria portuguesa em França não tem voz cultural na vida da pátria que adoptaram". Mais um cliché, como todos os anteriores que fui apontando sobre os portugueses de França e que se aplicam a quase toda a nossa emigração europeia.
Apesar de a realidade dos portugueses estar longe destes lugares comuns, sobretudo em França onde já há uma terceira geração de portugueses, Ruben Alves opta, juntamente com os seus argumentistas, por uma abordagem "bacalhau, fado, bigodes". Esta utilização de todos os clichés sobre os portugueses de França (e não só) é uma faca de dois gumes. É claro que ajuda a criar um humor fácil - inclusivamente para um público português - mas acaba por assentar estas ideias feitas na mente de todos aqueles que vejam "La cage dorée". E, infelizmente, esta obra será uma das referências sobre os lusitanos de Paris, não por ser brilhante mas porque é um dos raros filmes sobre eles.
A ignorância dos cinéfilos franceses - e mesmo dos críticos - sobre o cinema português é preocupante. A maioria das recensões escritas em França sobre "La cage dorée" evitam toda e qualquer análise e acabam por comparar o filme de Ruben Alves às comédias "à italiana" ou a "Bienvenue chez les Chtis".
Na verdade, "La cage dorée" é uma comédia "on ne peut plus" francesa. O realizador e os argumentistas optaram por soluções típicas do género cómico que vence nos ecrãs gauleses, baixando o nível para tornar o filme o mais simples possível, transformando-o num telefilme que vai fazer carreira nas televisões durante muitos anos.
O tom irónico que, na verdade, nunca é mau para com as suas personagens, cria uma sátira social que mantém o espetador divertido, sem destruir a dignidade dos nossos compatriotas ou das outras personagens. A família portuguesa beneficia de um capital de simpatia enorme mas a abordagem cai demasiado na humildade exagerada e em mais um cliché: "trop bons, trop cons", como todos sabemos sermos.
O "buzz" à volta do filme tem sido imenso, graças à comunidade portuguesa de França mas também pelo efeito de novidade que provoca uma película sobre os portugueses. Ruben Alves assina um filme divertido onde a narrativa é pouco desenvolvida e em que não há efeitos de surpresa, antes pelo contrário. O realizador assume os clichés: "A minha mãe é porteira e o meu pai pedreiro, eu mesmo sou um cliché", disse em várias entrevistas.
O lusodescendente diz que pretendeu transmitir aos franceses uma imagem humana e sensível dos emigrantes portugueses e, nesse aspeto, consegue fazê-lo com, por vezes, uma bem conseguida ironia. Mas a imagem, muito assente em França e em toda a Europa, do português bondoso, inculto, bom empregado e de um Portugal de porteiros e pedreiros sai reforçada desta gaiola dourada em que Ruben Alves nos meteu.
"La cage dorée" é um filme de Ruben Alves, com Joaquim de Almeida, Rita Blanco, Barbara Cabrita, Chantal Lauby, Maria Vieira, Jacqueline Corado e Roland Giraud.
Embora a Europa tenha dados passos importantes para combater a crise e assegurar um futuro mais
estável e próspero, há ainda muito por fazer para ajudar os cidadãos e as empresas da UE.
A União Europeia e os seus Estados-Membros adotaram medidas corajosas e inéditas para garantir a estabilidade do euro, assegurar a solidez das finanças públicas e criar condições para uma retoma
sustentável. Criámos uma rede de segurança financeira, sob a forma do Mecanismo Europeu de Estabilidade, dotado de 500 mil milhões de euros, tendo adotado instrumentos europeus muito mais
eficazes em matéria de governação económica. A intervenção firme do Banco Central Europeu foi decisiva para aliviar as tensões existentes no mercado, pese embora as condições de concessão de crédito às famílias e às empresas permanecerem difíceis em muitas partes da Europa. Em breve disporemos igualmente de um mecanismo único de supervisão para os bancos dos países da zona euro e de outros países da UE que a ele pretendam aderir.
Mas, paralelamente a uma maior integração económica e financeira, importa efetuar progressos na
construção da dimensão social da União. A crise atual está a ter um impacto enorme na vida de muitas
pessoas.
Um dos principais desafios com que a UE se depara hoje é o desemprego. Uma taxa de desemprego de
10,9 % — ou seja, mais de 26 milhões de desempregados em toda a UE — é demasiado elevada para ser
aceitável. O desemprego entre os jovens é particularmente alarmante pois, elevando-se a 23,5 %, há mais de 5,5 milhões de jovens que não conseguem encontrar emprego. Em países como a Grécia e a Espanha, a taxa de desemprego entre os jovens superou o valor ameaçador de 55%. Em Portugal, a taxa de desemprego chegou aos 17% e o desemprego juvenil eleva-se a 38,3. No Luxemburgo o desemprego é de 5,7% e a taxa entre os jovens atinge os 19,7%.
Não é portanto surpreendente que a principal preocupação dos cidadãos seja a economia: 9 em cada
10 europeus consideram que o desemprego e a situação económica são as principais questões que se colocam atualmente na sua região. Os políticos têm obrigação de responder a estas preocupações. A dimensão social é a outra face da moeda da união económica e monetária.
A União Europeia colocou a luta contra o desemprego no cerne da resposta à crise. A «Garantia para
a Juventude», proposta pela Comissão e adotada pelos Estados Membros, procura levar os governos
nacionais a assegurar que nenhum jovem fica sem emprego, estágio ou formação durante um período
superior a quatro meses.
O que nos falta hoje é um verdadeiro mercado laboral europeu. Mas como se pode ter um verdadeiro
mercado único na Europa e uma moeda comum na zona euro sem a plena liberdade de circulação dos
trabalhadores, juntamente com a livre circulação de mercadorias, dos serviços e dos capitais? O nosso ideal é uma União em que todos os cidadãos possam procurar emprego em qualquer dos Estados-
Membros, como sucede com os cidadãos norte-americanos, entre Nova Iorque, Michigan ou Austin.
Muitos cidadãos europeus ainda hesitam em procurar emprego noutro país da UE por temerem a sua
situação em que podem ficar se não encontrar em trabalho rapidamente. Hoje em dia, as pessoas que procuram emprego noutro Estado-Membro conservam o direito a continuar a receber o apoio financeiro
do seu país de origem por pelo menos três meses e, em certos casos, por um período máximo de seis
meses. Contudo, hoje em dia, um desempregado europeu necessita, em média, de 16 meses para encontrar um emprego. Como é compreensível, muitas pessoas não ousam correr o risco de procurar
emprego noutro país da UE, sobretudo porque, cada vez mais, os contratos oferecidos são de curta
duração.
Esta situação ameaça o crescimento e a inovação na UE: apesar das altas taxas de desemprego, o número de postos por preencher tem aumentado e as empresas têm dificuldades em recrutar pessoal qualificado.
Ao mesmo tempo, as pessoas perdem a oportunidade de trabalhar noutros países e regiões. Este facto
priva-as de meios de subsistência, entrava o crescimento económico e gera custos desnecessários para os sistemas de segurança social, os quais estão já no limite das suas capacidades.
Os números por vezes falam mais alto que as palavras: estima-se que o PIB dos países da UE 15 tenha
aumentado quase 1% a longo prazo em virtude da mobilidade resultante do alargamento da UE. Para a
União no seu conjunto, o efeito em termos de PIB dos recentes fluxos de mobilidade intracomunitária
equivale a um aumento do rendimento coletivo em cerca de 24 mil milhões de euros para os cidadãos
da UE. No mundo atual, a mobilidade dos trabalhadores não representa pois um custo mas sim uma
necessidade económica.
É por esse motivo que o objetivo de permitir aos cidadãos europeus beneficiarem de oportunidades
de emprego noutros países da UE, contribuindo assim para a economia, figura entre as prioridades do
Relatório sobre a Cidadania da UE de 2013 que a Comissão apresenta hoje. Queremos atualizar as normas em vigor em matéria de coordenação da segurança social da UE a fim de estudar a possibilidade de os cidadãos poderem continuar a receber o apoio financeiro a que têm direito no
respetivo país por um período mais longo que os atuais três meses. Os Estados Membros devem igualmente tirar pleno partido das normas em vigor, permitindo que quem estiver à procura de emprego
possa receber o subsídio de desemprego por um período até seis meses quando procure emprego noutro
Estado-Membro. Deve também ser intensificada a cooperação entre os diferentes serviços públicos de
emprego, a fim de ajudar eficazmente quem procura trabalho em qualquer lugar da UE. Este será um teste importante à determinação dos Estados-Membros em atenuar os efeitos da crise para os seus cidadãos.
Paralelamente, queremos facilitar aos jovens o acesso a informações sobre oportunidades de estágio ou de aprendizagem noutros países da UE, através da rede europeia de serviços de emprego (EURES) e do portal do emprego na Internet. Também pretendemos proporcionar-lhes estágios laborais de qualidade, mediante a criação de um quadro europeu de qualidade para os estágios, de modo a garantir que os seus direitos são respeitados e que os jovens tiram o máximo partido da sua experiência profissional.
Durante o presente Ano Europeu dos Cidadãos, queremos colocar os cidadãos europeus no centro das
atenções, a fim de reforçar a União Europeia e retomar o crescimento. A Comissão quer que a cidadania da UE seja uma realidade na vida quotidiana dos seus cidadãos e, para o efeito, apresenta hoje propostas concretas para tornar mais fácil aos cidadãos europeus trabalhar, estudar ou receber formação noutro país da UE.
Viviane Reding
Vice-Presidente da Comissão responsável pela Justiça, Direitos Fundamentais e Cidadania,
Olli Rehn
Vice Presidente responsável pelos Assuntos Económicos e Monetários e pelo Euro,
László Andor
Comissário responsável pelo Emprego, Assuntos Sociais e Inclusão
A Comissão Europeia acaba de me confirmar que a solução de capitalização de bancos em dificuldades, com recurso ao dinheiro dos depositantes, tal qual aconteceu no Chipre, poderá ser extensiva aos demais países.
De acordo com a resposta do Comissário Barnier, "para minimizar o impacto sobre os contribuintes, o instrumento de resgate interno («bail-in») previsto nesse enquadramento permitirá a um banco ser recapitalizado através da anulação ou diluição das participações accionistas e da redução ou conversão em acções dos créditos dos credores. Os depósitos inferiores a 100 000 euros continuarão a ser plenamente garantidos e são explicitamente excluídos deste instrumento."
Significa então que os valores dos depósitos acima dos 100 000 euros, poderão ser utilizados na capitalização dos bancos, convertidos em acções, ou mesmo sem qualquer contrapartida para os clientes (redução).
Considero a solução injusta e desproporcionada, porque desonera quem de alguma forma tem intervenção na actividade bancária ou na sua fiscalização, e responsabiliza unicamente quem não teve qualquer culpa.
O BCE tem hoje responsabilidades de supervisão. Se não for capaz de detectar práticas insolventes de um banco, não responderá por isso.
Os Bancos Centrais têm responsabilidades de supervisão e autorizam os produtos que os bancos dos respectivos países comercializam. Se não forem capazes de detectar práticas insolventes, também não responderão por isso.
No limite, nem em relação aos administradores que promoveram tais práticas, a resposta refere qualquer responsabilidade particular, para além da que decorre da lei.
Já os depositantes, convencidos por todos estes intervenientes da credibilidade e robustez de um banco em particular, que depois venha a revelar dificuldades, serão precisamente quem poderá ser chamado a suportar a sua capitalização, perdendo o dinheiro dos respectivos depósitos acima dos 100.000 euros.
Normal seria que a capitalização dos bancos em dificuldades fosse assegurada unicamente pelos próprios bancos, através de um fundo capaz, para que todos contribuíssem e ao qual aqueles que tivessem dificuldades pudessem recorrer, devolvendo posteriormente o respectivo montante ao fundo, nos termos que viessem a ser acordados. E esta, era francamente a resposta que esperava e gostaria de ter lido da Comissão Europeia.
Nuno Melo
Eurodeputado
(Publicado na sua página Facebook)
Lembro-me perfeitamente desta frase do homem que teimou em defender o património histórico.
Depois de 15 de Março de 1961 chegavam ao aeroporto da Portela de Sacavém, milhares de familias em pânico, fugidas aos massacres da UPA no Norte de Angola.
Este facto não evitou que houvesse uma tentativa de Golpe de Estado,dirigido pelo General Botelho Moniz,contra Salazar,de forma a poder negociar com os terroristas que haviam esventrado, serrado, decapitado, violado portuguesas e portugueses, sem dó nem piedade.
Em situações de dificuldades extremas aparecem sempre uns militares iluminados capazes de inverter o rumo dos acontecimentos pactuando com aqueles que nos causam essas dificuldades.
Salazar toma a pasta da defesa e afirma "para Angola rapidamente e em força". Defendeu estoicamente tal património e definiu-o como "designio nacional"
Contudo,os nossos inimigos não desistiram e na ONU perdemos votações que nos impunham a saída do Ultramar.Todas as nações ditas do mundo ocidental foram contra nós. As de Leste não nos surpreendia a sua animosidade,porque o comunismo sempre nos foi hostil.
Era insuportável que um tão pequeno país da Europa pudesse possuir tão vasto território, dominando matérias primas que interessavam grandemente à indústria ocidental.
Por isso,ficámos orgulhosamente sós no contexto internacional,mas não precisámos de ninguém para sobreviver.
Mais uma vez,em situações de dificuldades surgiram de novo os iluminados militares,qual tropa fandanga, a espetar o punhal nas costas daqueles que defendiam o tal designio nacional.
Com o velho que caiu da cadeira debaixo de terra a tropa fandanga venceu a golpada de Abril de 74 e entregou aos inimigos o património histórico.
Foi uma alegria extraordinária com o fim da Guerra do Ultramar. Logo surgiram igualmente aqueles que afirmavam que agora estávamos "orgulhosamente acompanhados".
França, Inglaterra, Suécia, Noruega, Itália, USA e até a URSS e seus satélites bem como a China, etc., estiveram connosco.
Com o "orgulhosamente acompanhados" passámos de auto-suficientes para indigentes, de mão estendida à caridade para a sobrevivência colectiva.
Aqueles que nos expulsaram do Ultramar,fornecendo o armamento para liquidar a nossa defesa, em conluio com os traidores exilados,são os mesmos que,neste momento,nos emprestam dinheiro para pagar salários e pensões.
E quem é que se encontra no Ultramar a aproveitar os recursos? Os que nos abandonaram e ajudaram os nossos inimigos.
Estão lá todos a explorar os recursos.Portugal é que não poderia lá continuar.
Os abutres abocanharam o Ultramar e hoje estrangulam Portugal.
Se tivéssemos conhecimento das consequências do desastre, o que teriamos preferido?
O ORGULHOSAMENTE SÓS ou o ORGULHOSAMENTE ACOMPANHADOS??
Trinta e nove anos são passados sobre o "tsunami" que flagelou Portugal. Deram aos portugueses uma amostra de Democracia, como se tivesse sido a cenoura que um coelho tenta alcançar sem a conseguir e com essa distracção infantil sonegaram-lhe o espaço que constituia a sua vitalidade de provocar inveja.
Uns saltitaram e deliraram com as brincadeiras que lhes ocasionaram,enquanto outros se viram agredidos e humilhados com os diversos labéus como fascistas, colonialistas, exploradores de negros, retornados, devolvidos, foragidos, fugitivos, etc.etc.
Os que andaram pelo espaço sonegado até pareciam que não eram portugueses, mas meros estrangeiros da pior espécie, saltimbancos, gente estranha de estranhas terras.
Aliás, aqueles que se fixaram a esta terra como lapas, como autóctones ou como aborígenes, incapazes de voos por largos horizontes, medrosos do desconhecido, abúlicos pela aventura ou pelo conhecimento de outras paragens e diferentes paisagens ainda apelidam os Emigrantes portugueses como "as moscas de Agosto".
Continua a Pátria Madrasta a ofender aquele que está ausente como o enteado não desejado.
Chegam da "estranja" com os euros amealhados nos bolsos durante o ano ou anos e vêm deixá-los a Portugal ou até os enviam há tempos sem fim para que a Pátria Madrasta deles se sirva em troca de migalhas.
Os Retornados trouxeram a riqueza da sua experiência e da sua maneira de olhar os horizontes vastos.Deixaram tudo para trás e até os enganaram com a transferência das suas economias, quando, por decreto assinado por um malfeitor, vindo da orgia parisiense, hoje sentado à mesa do manjar do Orçamento, anulou o valor do dinheiro com que se pagava o sal do esforço.
Passaram 39 anos da alegria esfuziante, transformada no presente na tristeza e na dor iguais às que sofreram os retornados e sofrem os emigrantes.
Perdoai-lhes, Senhor, mas eles sabem o que fizeram e fazem!
"Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube", é o mote encoberto da classe política portuguesa (e da nação), bem descrita na “ Farsa Inês Pereira “ de Gil Vicente. A classe política prefere ser levada por um povo asno (Pero Marques) do que ter um povo esperto (cavalo) que a controle. O mesmo se poderia dizer do povo.
Inês Pereira é uma moça interesseira e preguiçosa que vive insatisfeita na monotonia do dia-a-dia. Por isso pretende arranjar um marido progressista que a tire da pasmaceira duma vida insignificante. São-lhe apresentados dois pretendentes: Pero Marques (conservador, bom, rico, ingénuo e simplório) e o Escudeiro Brás da Mata (progressista, homem com maneiras, controlador e refinado). A dificuldade de Inês na escolha do marido, vem-lhe do conflito que traz consigo. Nela debatem-se duas mundivisões: a medieval (Pero Marques) e a moderna (Cavaleiro). Inês recusa o primeiro pretendente Pêro Marques, mas ao notar que o Escudeiro Brás da Mata (segundo pretendente) é demasiado exigente e não a honra; Inês, logo que se livra dele, casa com Pero Marques. Este é tão bobo e saloio, que cantando e bailando a leva às costas a um ermo onde ela pode dormir com um falso Ermitão (antigo amigo). Inês Pereira é ajudada por vários personagens, todos eles só estão interessados no negócio com o casamento.
Na Farsa, além do fadário do país na sua luta entre a visão tradicionalista e a visão modernista, reconheço a classe política representada pela protagonista Inês Pereira (oportunista) que trai o marido Pero Marques (povo tradicional) e não sofre as consequências disso. Em Inês podemos reconhecer tanto o rescrito da nação como dos partidos. Inês serve-se da esperteza para granjear a simpatia. A classe política também se tem servido da alcoviteira Lianor Vaz e dos judeus Latão e Vidal (TV, Media, etc.), dos Moços (do partido), dos Ermitãos (maçonaria e interesses internacionalistas, republicanismo mercenário, etc.) e da Mãe (Presidentes da República cúmplices dos jogos da classe política), para se servir a ela e aos seus acólitos.
Uma nação incapaz de integrar nela mesma a terra (conservadorismo) e a ideologia (progressismo) está predestinada a não se encontrar a si mesma e a expressar-se partida. Por isso a sociedade portuguesa não cresce organicamente de maneira continuada. A sua evolução dá-se, aos soluços, de crise em crise, num processo de querer adquirir o perdido nunca alcançado. Isto agravou-se a partir do séc. XIX. A partir daqui a ideologia assume o lugar da terra.
“Casa onde falta o pão todos ralham e ninguém tem razão”. A crise financeira portuguesa de 1891, (http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218726298J7kLR2hh1En65AF7.pdf) acompanhada das revoltas republicanas. culminou na abolição da monarquia em 1910. A Carbonária (“defensores da Pátria”), braço direito da maçonaria matara o rei e o infante em nome da defesa dos interesses nacionais e do modernismo, com a mesma ligeireza com que tinha atraiçoado a pátria ao saudar as invasões francesas como libertadoras. A 1ª república acaba também falida no golpe militar de 28 de Maio de 1926, que instala a ditadura militar até 1933. Com a Constituição de 1933, forma-se o “Estado Novo” (regime autoritário com tendências fascistas mas que não assume o fascismo); este entende-se já não como fruto da ideologia mas como tentativa de reabilitar o Estado através do corporativismo económico e social, compreendendo-se como "um Estado pluricontinental e multirracial". Salazar tenta dar uma nova tarefa ao país: olhar para a terra e defender o ultramar.
A 25 de Abril de 1974 é demitido o regime autoritário de Salazar. A Junta de Salvação Nacional das FMA nomeou como presidente da República o General António de Spínola a 15 de maio de 1974. Segue-se o período anárquico dos revolucionários em torno do PREC (Processo Revolucionário em Curso). Surge o 25 de Novembro de 75 a corrigir um pouco a direcção anárquica com o Presidente da República Ramalho Eanes. A impaciência da liderança partidária e a pressão de “estrangeirados” como Soares, Cunhal, etc., interessadas em arrecadar para si o sol de Abril apressam a tarefa de impor os seus interesses partidários. A 25 de Abril de 1976 a terceira república restabelece o regime democrático, com a nova Constituição de orientação comunista e com as eleições.
Com a derrocada do regime autoritário de Salazar, o 25 de Abril de 1974 restabelece o caracter ideológico da primeira república com muitos avanços a nível de ideias e retrocessos a nível da terra. Portugal desconcilia-se ainda mais e continua a viver na superficialidade de ondas de ideológicas. Para Portugal ser fiel a si mesmo e se reconciliar internamente teria que permitir-se uma discussão séria entre conservadores como Salazar e socialistas como Azedo Gneco; doutro modo seguirá o mau caminho de dupla personalidade (esquizofrenia) à medida dum Mário Soares republicano comunista que depois salva a raposa republicana tornando-se socialista estrangeirado. A tática do seu PS foi difamar e defraudar sistematicamente a direita e a Igreja de maneira a criar na opinião pública num anti-conservadorismo como tinha criado com o anticlericalismo na primeira república (perpetuando uma mentalidade mesquinha do contra, seja ela anticlerical ou anticomunista). Assim um republicanismo jacobino consegue, através dum socialismo estrangeirista vaidoso, impor à nação uma prática cultural extremamente ideológica. Torna tabu tudo o que é conservador esquecendo que uma política séria e dinâmica teria de ter um aspecto conservador e outro progressista como partes integrantes e expressões duma só realidade. Enquanto o país não for capaz de equacionar uma política conservadora e uma política progressista teóricas próprias, auto-conscientes e bem fundamentadas, de origem e convergência nacionais, continuará nas mãos dum internacionalismo para inglês ver.
O país ainda não digeriu a revolução liberal (invasão francesa)! Não conseguindo apaziguar a terra com a sua ideia, vivendo ao rumo de ideologias interesseiras e estrangeiras. Também a primeira república, embora engordada pelos bens Igreja não serviu mais que os interesses dos que a fizeram, fomentando os barões do 5 de Outubro que em 16 anos produziu 39 governo e acabou na bancarrota em 1926. Afinal, o benefício do 25 de Abril foi dar à nação o desenvolvimento que os governos dos países vizinhos, sem o desvio da revolução, deram ao seu povo; caracterizou-se, no seguimento da primeira república, por criar novos barões (os novos ricos) quando o que se esperava era que produzisse cidadãos.
Tal como aconteceu na primeira república, a sociedade portuguesa, em vez de discutir objectivamente a melhor maneira de construir um Portugal solidário independente e de impedir a falência do Estado, é levada a cultivar um discurso partidário em torno duma rectórica de culpas e desculpas geralmente à margem da “coisa pública”. O maior impedimento momentâneo para o desenvolvimento do país encontra-se num estado ocupado a nível de estrutura e inquinado por um discurso unilateral do ou… ou… Neste sentido, o desinteresse da nova geração pelos seus pais, que ocupam a opinião política e pública, só poderá ser de benefício para a nação para o momento em que assumam eles a responsabilidade de dirigir o país.
A sociedade portuguesa tem vivido dum grande equívoco: o equívoco de identificar os interesses de Portugal com os interesses dos partidos e o equívoco de identificar lógica (rectórica) com a realidade objectiva.
De facto o que temos é uma nação travada pelas peias dos partidos sempre a mancar atrás do acontecimento e com uma classe política (de conservadores envergonhados e progressistas arrogantes a governar no enclave de Lisboa) a viver da improvisação (Cavaleiro) e a servir de manequim à moda que o estrangeiro produz.
Os que levaram o Estado português à ruina apresentam-se como a solução e, o que é mais grave, Portugal não tem alternativa de escolha: só pode escolher entre maus e piores (aliás uma tendência geral contemporânea!). Neste contexto, também o fenómeno Sócrates não é mais que um sintoma dum Portugal adolescente, melindrado e doentio, dum querer ir ao restaurante sem ter de pagar a conta, dum Portugal Inês Pereira.
Uma cultura democrática, que limita o discurso político à satisfação de adeptos, como se o Estado fosse um relvado onde os políticos jogam o seu jogo perante um povo reduzido a assistência, uma população de claques logo satisfeitas com a perda do clube contrário, desautoriza-se e impossibilita, ao cidadão, a capacidade de referência à realidade. Suficiente parece ser o calor da afronta, pertencer-se ao partido do contra; é-se moderno e sabido na medida em que se tem opinião contra isto ou contra aquilo: contra o governo, contra a Igreja, contra a esquerda, contra a direita, contra a justiça e contra a injustiça... A essência do discurso político e popular parece reduzir-se a duas palavras: ser contra, pertencer aos contras dos contrários. O ser do contra acrítico confere estatura moderna e encobre a ignorância do contra e do contrário. Este espírito de contradição impede a formação duma cultura conservadora crítica séria e profunda e impede também a formação duma cultura progressista crítica séria e aferida ao país. A inveja e a pretensão completam-se…
Um povo é levado ao engano pelos modelos que se lhe apresentam. Só lhe resta a oportunidade de comparação entre os que o sistema político lhes apresenta e estes são reles porque o húmus republicano que os produziu, mais que na ideia, baseia-se num pragmatismo parasitário e oportunista condicionado e condicionante: um sistema de pensamento de matriz partidária.
A República Portuguesa, uma realidade muito enredada e mal feita, (talvez demasiado vergonhosa para poder ser contada nas aulas de História!) só poderá tornar-se frutífera depois dum autoexame crítico sem recalques. Sem o reconhecimento dos erros dos conservadores e dos progressistas, a partir duma grelha da cultura nacional, o país não sairá do ciclo vicioso de extremos pendulares. Fruto de ideologias importadas e mal digeridas, a república, têm conduzido Portugal de insolvência em insolvência, não conseguindo produzir políticos, à altura do povo histórico luso, nem da realidade contemporânea. Herdou da monarquia e da Idade Média os vícios que pretensamente queria combater com a mudança, mas que, de facto, ainda exacerbou ao incorporar as aspirações do “Escudeiro”: nobreza (elite) decadente, aventureira e parasita que vive da trafega do vinho azedado em odres novos!
Portugal ainda não terminou a guerra civil. Apenas transformou a guerra civil armada em guerras ideológico-partidárias, numa guerra da cidade contra o campo, do moderno contra o tradicional, do povo contra o povo. Os conflitos armados encontram a sua perpetuação através dos conflitos ideológicos nos partidos numa luta desigual de conservadores intimidados e de progressistas atrevidos.
Na tribuna pública da sociedade portuguesa (TV) reina o discurso partidário e a sociedade não se pode resguardar porque não tem infraestruturas capazes de criar alternativas reais e independentes. Não há grupos de imprensa fortes nem correntes de pensamento de relevância nacional capazes de provocar impacto político que obrigue a nação a reflectir para crescer organicamente. Um Estado ocupado por um sistema de bajulações e de “guetos secretos” pouco mais pode produzir que mediocridades a nível económico, político, cívico e social. Neste sistema, a correspondente ascensão partidária favorece a formação de líderes medianos de espírito mais esperto que inteligente, animais políticos, frutos de influências e jogos; expressam neles mais a esperteza árabe do que a inteligência francesa. Na falta de modelos políticos, económicos e sociais consistentes, Portugal não conhece alternativas aferidas à realidade. Apenas conhece alternativas partidárias, que centram a atenção em modelos particulares inferiores. A República só tem vindo a gerar alternativas atrofiantes. Nenhuma delas tem a qualidade de dominar a outra ou de ser integral. A opinião pública, dado adquirir o conhecimento político através da via demagógica, só é capaz de equacionar os problemas em alternativas binárias partidárias ou na irresponsabilidade de partidos pequenos com ideias luzidias mas não aferidas à realidade portuguesa. Considera como satisfação do seu ideal o servilismo a um partido, quando o ideal passaria por uma terceira via, fruto de uma análise científica fria independente, baseada na realidade, que o sistema impossibilita. Mesmo o povo pensante, aquele que não reduz a sua erudição ao saber acomodado da TV, não é confrontado com uma alternativa real, deixando-se levar pelo efeito Decoy. Assim, o sistema político português não gera alternativas adequadas ao povo e às necessidades da nação. São muitas vezes alternativas copiadas de países também elas decadentes porque baseadas na divisão e na exploração do mais fraco.
Lugar-comum das nossas revoluções tem sido o adiar da nação em nome de liberdades coloridas: Tal como elites portuguesas se tinham outrora colocado do lado do invasor napoleónico, também no 25 de Abril, os seguidores do mesmo espírito, se puseram ao lado da União Soviética passando as províncias ultramarinas portuguesas para a influência comunista. Agora, o 25 de abril tropeça na própria ideologia, porque, na realidade “quem dá o pão, dá a criação”. No tempo de D. Manuel o magnânimo, tínhamos os quintos das especiarias, depois o ouro do Brasil, as remessas dos emigrantes e os fundos perdidos. A incapacidade política do país, para acompanhar a nação e a evolução dos tempos, leva-a a viver num estado esquizofrénico (de personalidade fendida). Os egos dos partidos têm sido construídos à custa do povo e contra o ego da nação.
Gil Vicente, quando escreveu a farsa de Inês Pereira, certamente já previa na política de José Sócrates o Escudeiro Brás da Mata e, na de Passos Coelho, o Pero Marques! Na rotação, de noivado em noivado, Portugal emigra, envelhece e não gera.
A Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), a Associação de Pais da Escola Portuguesa de Diekirch, a Associação de Pais de Ettelbruck, a Associação de Pais dos Alunos da Escola de Medernach e a Associação de Pais da Escola Portuguesa de Pétange, Rodange e La Madeleine, expressam o seu total desacordo perante a decisão do executivo português de cobrar uma propina nos cursos extracurriculares da língua e cultura portuguesa (regime de “ensino paralelo”) organizados pelo Camões, IP. aos filhos dos portugueses no Luxemburgo.
No seguimento das reservas levantadas pelo Estado francês à cobrança da propina no sistema paralelo, e das palavras proferidas pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr.
José Cesário, garantindo em Paris que os alunos de língua portuguesa que frequentam os cursos
integrados nas escola francesas não pagarão propina no ano letivo 2013/2014, as organizações
supracitadas afirmam:
- primeiro, que esta é uma medida desigual, injusta e discriminatória em relação aos Portugueses
no estrangeiro;
- segundo, que a Portaria n°102/2013 de 11 de Março que fixa a propina para alunos do Ensino português no Estrangeiro, viola o princípio da gratuidade do ensino (os locais são cedidos pelos
municípios e pelos diretores de escolas luxemburgueses, sem cobrarem nada ao estado português) e da igualdade (art.° 13°) dos cidadãos portugueses perante a lei;
- terceiro, que esta medida irá contribuir para a gradual e expressiva redução do numero de alunos dos cursos língua e cultura portuguesa e para o consequente despedimento de professores, impossibilitando às gerações futuras o acesso à sua língua, à sua cultura e identidade.
Perante a real ameaça da perda do nosso passado num horizonte sem futuro, lançados num cenário de crise económica e social que também afecta a comunidade portuguesa no Luxemburgo, os signatários propõem a imediata suspensão das propinas no ensino de português no estrangeiro e a procura de financiamentos alternativos para que se possa garantir a aprendizagem da língua e a cultura portuguesa às crianças e jovens, que embora fora de Portugal também são portugueses.
Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL)
Associação de Pais da Escola Portuguesa de Diekirch
Associação de Pais de Ettelbruck
Associação de Pais dos Alunos da Escola de Medernach
Associação de Pais da Escola Portuguesa de Pétange, Rodange e La Madeleine
Nestes últimos tempos, muita coisa foi falada acerca do mau funcionamento no Consulado Geral de Portugal no Luxemburgo.
É verdade que antes da nova modalidade de atendimento que foi posta em curso no fim do mês de Março, o serviço não funcionava de todo, sendo saturante uma ida ao Consulado mesmo para o mais simples do assunto. Contudo, apos uma boa divulgação, através da rádio ou dos jornais (embora que mesmo assim vieram vozes de que não foi bem divulgado) das alterações que iriam ser postas em funcionamento, tenho a dizer que no próprio dia em que entrou em vigor, enviei por mail um pedido de marcação para renovação de B.I., e responderam-me dois dias depois com uma marcação para a semana seguinte.
Pediam-me simplesmente para estar lá à hora marcada.
Chegou o dia, e à hora estipulada, neste caso foi às 8 horas, chamaram-me por ordem de marcação, entrei e não estive sentada 2 minutos, chamaram-me de novo. Do registar todos os dados, pagar, tirar fotografia, assinar, receber o papel, decorreram 20 minutos.
Às 8h25 estava na rua, com um atendimento exemplar, sem falhas!
Tive de voltar atras para pedir um certificado e a pessoa seguinte que já tinha sido chamada, ainda não estava presente!
Afinal, quem é que não está a cumprir e a respeitar os horários e o funcionamento?
Depois dizem que o funcionamento não esta à altura das expectativas! Eu não tenho nada a reclamar, pelo contrário, e as coisas positivas também têem de ser divulgadas.
Sócrates é o homem que melhor retrata o estado doentio dum país renitente que se recusa a encarar a realidade em que se encontra para continuar a viver embalado em sonhos e contos da carochinha. A sociedade portuguesa continua a cultivar poleiros como se o cacarejar de galos com penas de modernidade lhe dessem o pão e lhe pudessem compensar o atraso económico. No panorama português continua a não haver alternativa de escolha, a não ser a opção entre o mau e o pior.
O sistema partidário português, num país de adeptos que não de eleitores, não precisa de se preocupar com questões deontológicas, nem com os verdadeiros problemas da nação; vive das victórias partidárias e o desagradável é resolvido pela rectórica e pelos estrangeiros (Troika).
Sócrates regressa a Portugal e entra pela porta do cavalo, recebendo um poleiro semanal de destaque no sacrário da nação (TV). Daí pode ditar as suas sentenças e atirar pedras numa nação partidária devota, habituada a comer e calar e a admirar uma argumentação fomentadora de ressentimentos. A argumentação fascina-os, não a realidade nem o objecto da argumentação. Mas por uma questão de justiça para com o povo português terá de ser dito que o que acontece em Portugal já germina, há muito, na Europa e a decadência começa pelos mais fracos.
A TV pública, que privilegia os galadores políticos, está consciente de que pode beneficiar e receber, de braços abertos, o seu filho pródigo sem que os seus irmãos fiéis protestem. Aquele abandonou o país depois de o ter conduzido a uma situação desolada; ciente de que o povo tem memória curta, e como esperto “animal político”, aguentou-se em Paris o tempo suficiente para poder descer de paraquedas ao povoado e poder falar da desolação dum país que ele mesmo afundou, ajudado pelos outros partidos. Apesar da bancarrota e da Troika continuam a ter a razão toda; continuam a falar como se fossem libertadores. É um lugar-comum partidário, ignorar a crise económica e cultural, falar mal dos governos e branquear a própria miséria no tempo da oposição. Num país irreal, José Sócrates, com a sua atitude galante, é a melhor Isca que o PS tem também para frustrações e sonhos femininos. Espectadores, que não distinguem entre o brilho do falar e a argumentação seguem, de olhar fixo, mais uma história de embalar crianças.
Um país de tanga, com uma TV jacobina à procura de “audiências”, prefere a demagogia gratuita à informação séria paga!
A melhor atitude a assumir neste desapropósito, seria o boicote ao programa de Sócrates, e até apagar a televisão; “para quem é bacalhau basta”! O boicote não se deveria dar por razões partidárias mas apenas por uma questão de honra e de respeito por si mesmo e pela nação. Seria ingenuidade pedir responsabilidade à direcção da TV; ela é fruto de interesses mesquinhos e não duma cultura política. De facto, tão culpado é o PS como o PSD por tal desacato.
"Um político que desiste de puxar pelas energias do seu futuro não está à altura das suas responsabilidades". No contexto em que Sócrates proferiu esta frase fala como se a defesa dos seus interesses se identificasse com a defesa dos interesses do Estado. E referindo-se ao seu espaço semanal na TV pública como comentador político, a partir do 7 de Abril, disse laconicamente: "Ninguém tem de ter medo". Como se a sua entronização não fosse um acto partidário inocente numa TV pública sempre partidariamente politizada nem mais uma encenação para um povo que só conhece a realidade política situada entre as frontes dos interesses partidários. Pelo que se constata, Portugal continuará a viver embalado pelo cantar da cigarra a encantar a formiga!
É o cúmulo dos cúmulos o que a classe política portuguesa, aninhada nos bastidores da TV pública, se permite. Não é de admirar porque o manancial do grande saber público é a TV. Sócrates, e muitos outros, podem permitir-se fazer o que bem lhes apetecer porque desonraram o povo português a ponto de fazerem do Estado um bordel! O espírito democrático ainda não chegou aos partidos, doutro modo haveria membros que boicotariam tal disparate que só fala mal de Portugal e dos membros dos partidos que se permitem o que em nenhuma nação europeia de respeito se não permitiria.
Quando é que o povo regressa de férias para pôr Portugal na linha? Sócrates como comentador na TV pública, é a melhor prova de que Portugal não tem os pressupostos necessários para poder mudar e que a classe política continua a apostar na corrupção e na demagogia. O Bobo tem pele grossa e não nota o que acontece.
A cegueira é tanta que até se argumenta que em nome da honestidade e da representação proporcional na TV se deve tratar a todos por igual. Seria porém desonesto pretender-se, em nome da honestidade, falar da desonestidade. O sistema rotativo confirma que a um presidente PSD se sigue um socialista e o povo, sem entender nada do que se passa em Portugal já se cansou de Coelho como antes de Sócrates. Neste cenário, quem melhor que Sócrates para atrair um público feminino com grande poder na votação!
Porque nos encontramos num enredo de desonestidades consecutivas, o povo terá de aguentar uma desonestidade rotativa resumida no progresso da continuidade do banal.
Naturalmente que cada qual tem direito a honrar e louvar os seus "santos" mas querer, em nome da desonestidade de uns, afirmar o direito à desonestidade dos outros é perversão e deslealdade para com o todo. Esta tem sido uma constante da república.
Eles bem sabem que os cães ladram mas a sua caravana passa. O sistema de mafia branca que vive nas entranhas da nossa república tira sempre proveito tanto do sucesso como da bancarrota. O excessivo discurso partidário inquinou a nação. A luta política tira-nos as forças que poderiam ser empregues na defesa de programas objectivos servidores do povo e da nação.
Já outrora o povo gritava: soltem Barrabás. E o sábio sermão da montanha diz: “não oponhais resistência ao mau”. Mas o mesmo discurso diz também: "Bem-aventurados os que têm fome e sêde de justiça, porque serão saciados."
Sou um cidadão luso que habita no Luxemburgo há 12 anos. Durante este período tenho recorrido aos serviços do Consulado sempre que é necessário.
No início era uma desgraça; era necessário irmos para a porta do Consulado de madrugada para obter uma senha para sermos atendidos, e quando conseguíamos, muitas vezes os funcionários não eram eficientes, tinham sempre um pretexto para complicaram o que muitas vezes era fácil.
Desde que o Consulado mudou para as novas instalações as coisas foram melhorando. Estas melhoras também se deviam graças aos diversos cônsules que por lá foram passando que cada um a seu jeito foi impondo as suas regras.
Recorde-se que a Dr. Cristina Almeida, a antecessora do ultimo cônsul , diariamente fazia questão de sair do seu gabinete e vir até junto dos utentes conversar com eles e inteirar-se dos seus descontentamentos.
Quanto ao útlimo cônsul, Dr. José Rosa, era mais reservado e pouco comunicativo, o que na altura levou ao descontentamento dos funcionários, com certas atitudes por ele tomadas. Durante o seu mandato foi contestado por, ao final do dia de trabalho, fechar as torneiras do aquecimento geral e só voltar a abri-las de manhã quando chegava. Esse descontentamento foi conhecido publicamente através dos órgãos de comunicação do Luxemburgo.
Atualmente apesar das coisas não estarem bem, os serviços têm melhorado significativamente. O atual cônsul pós em pratica as permanências consulares no exterior, onde segundo informações divulgadas no site www.bomdia.lu, são atendidas entre 25 a 30 pessoas, o que é excelente para a nossa comunidade.
Também com as novas mudanças o atual atendimento é feito por marcação e é necessário faze-lo ou através de telefone ou internet. Esta nova forma de atendimento tem sido divulgada frequentemente tanto nos jornais como rádio ou no site BOMDIA.
Não há motivos para que os utentes digam que não estão informados, mas infelizmente ainda há necessidade de mudar certas mentalidades, pois tal como diz o velho ditado "quanto mais damos mais querem".
Necessitei de renovar o meu Bilhete de identidade. Depois de telefonar sem êxito recorri ao e-mail que tem sido divulgado (
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) onde solicitei uma marcação para renovar o referido documento e onde escrevi todas as minhas coordenadas. Fui contactado pelos serviços que me fixaram a data e hora.
Cheguei 10 minutos adiantado. Informando o segurança sobre o que vinha tratar esperei cerca de 5 minutos, fui chamado e atendido por um funcionário extremamente educado e eficiente.
Até pensei que seria engano: não levou mais de 10 minutos a estar despachado. Passado uma semana recebi em casa os respetivos códigos e voltei ao consulado para levantar o meu documento. Informei o segurança ao que vinha e deu-me a senha A para levantar documentos.
Durante o período que estive à espera cerca de 15 minutos fiquei admirado por não ver tanta afluência no consulado como era habitual. Eram 9 horas da manhã, interroguei-me sobre o que se passara. Felizmente tudo estava normal mas neste período de espera reparei que foram chamadas várias pessoas que tinham marcação e que não estavam presentes. É triste pois no lugar deles poderiam ter sido atendidas outras pessoas.
É fácil criticar, é fácil dizer mal, é fácil dizer que não conseguem ligar para o consulado. Mas estamos em pleno século 21 e a grande maioria tem acesso à internet.
Além disso estas mudanças do consulado têm sido divulgadas com frequência nos meios de comunicação social, não há motivos para se dizer que não sabiam.
Há poucos dias saiu uma notícia no jornal Contacto a denegrir a imagem do Consulado por causa do atendimento. Em meu entender, antes de divulgar uma notícia, seria bom inteirarmo-nos da realidade.
Antes de se deslocarem informem-se que tem que fazer e quais os documentos necessários ou recorram às permanências consulares, vejam com os próprios olhos antes de criticar.
Sou um cidadão com 60 anos, mas faço questão de andar informado sobre o que se passa neste país onde somos mais de 100 mil. Era bom que passássemos uma boa imagem aos cidadãos luxemburgueses, deixarmos de ser uns coitadinhos e desordeiros. Não são necessários grandes estudos, mas sim civismo e adaptarmo-nos e integrarmo-nos na sociedade luxemburguesa para que possamos ser respeitados.
José Sócrates falhou o seu regresso à política, após o tão celebrado "silêncio de dois anos".
Por duas razões muito simples. Não tinha nada de novo para dizer. E mostrou que não mudou nada.
O país está à beira de mais uma enorme tempestade política, por causa do Tribunal Constitucional e da sétima avaliação da troika.
Não precisa para nada de um velho líder que voltou para resgatar as suas culpas. Em particular as suas culpas no resgate em que estamos metidos.
Já são poucos os que têm ilusões na gestão da crise dos sucessores de José Sócrates.
Porque estamos na Quaresma, o primeiro-ministro que emigrou para Paris podia ter feito o seu acto de contrição. O número do cordeiro pascal. Nada disso.
Continua o mesmo de sempre. Agressivo, arrogante, zangado. Sempre a corrigir os entrevistadores e a querer impor uma linha para o debate: a sua.
José Sócrates tem razão quando diz que tem o direito a fazer a sua narrativa dos anos em que foi primeiro-ministro e da crise que o fez cair. Ou quando diz que estão errados os que dizem que a culpa dessa crise é apenas do que o seu Governo fez ou deixou de fazer.
Mas isto nós já sabíamos há dois anos.
Ao contrário de várias previsões, Sócrates poupou Seguro e até o desculpou por não defender o seu legado.
Concentrou-se em Cavaco e na história do PEC IV. Mas o PEC IV - em que o PSD, como é sabido, não se portou nada bem - foi o fim de um filme.
Para trás ficaram meses e meses de cegueira e obstinação perante a crise que se agravava. E isso José Sócrates ignorou.
O PEC IV era o melhor tiro que Sócrates tinha neste regresso. Já o usou.
Como um Narciso ferido, Sócrates, o animal feroz, veio então mostrar-nos a sua narrativa.
Mas o engenheiro do inglês técnico continua a ser acima de tudo um grande engenheiro de superfícies.
Um homem que procura moldar a realidade até que ela se transforme numa superfície que reflicta exactamente o que ele quer ver nela.
Veio para reivindicar o seu direito a falar e diz não visar qualquer cargo político - este sim, foi o momento cordeiro pascal da entrevista na RTP1.
E se tem todo o direito a falar, em nome da pluralidade, começou já a zurzir em toda a imprensa de que não gosta. Tal como fez no passado.
Nem todas as narrativas cabem no espelho do engenheiro de superfície.
Foi o prefácio, segue-se a obra.
E voltamos à cena do ódio.
O regresso de Sócrates despertou ódios e paixões exacerbadas.
A tudo isto Sócrates acrescenta um outro ódio: o seu próprio ódio por quem não partilha a sua narrativa.
Não tem mais nada a dizer aos portugueses.
Mas o engenheiro de superfícies ficou prisioneiro da sua própria narrativa. E não percebeu como Portugal mudou.
E o país pode estar sem futuro mas não é por isso que precisa de regressos ao passado.
Em breve iniciaremos um processo legislativo para fazermos alguns ajustamentos à Lei do Conselho das Comunidades Portuguesas.
O objectivo essencial é garantir uma maior proximidade com as Comunidades, uma grande representatividade local e o ressurgimento de órgãos como os Conselhos Regionais e Locais.
Porém, há muitas outras questões que poderão "estar em cima da mesa":
- A relação institucional com o Governo e outros Órgãos de Soberania;
- O futuro das Comissões Temáticas;
- A relação com os Conselhos Consultivos das Áreas Consulares;
- O financiamento do Conselho;
- O número de conselheiros;
- O método de eleição;
- A existência de conselheiros não eleitos;
- Os poderes e o estatuto dos conselheiros;
- A relação com as embaixadas, os consulados e outros serviços do Estado;
- A articulação com o movimento associativo;
- A participação das mulheres e dos jovens;
Entre muitos outros...
Sei muito bem que para termos um mínimo de sucesso deveremos ouvir outras pessoas que não apenas os actuais membros do Conselho, que já nos facultaram os seus contributos.
Por isso, sem prejuízo de outras iniciativas institucionais que tomaremos nos próximos dias, peço a todos aqueles que queiram dar contributos que aproveitem para desde já o fazerem, dando-nos conta do modo como encaram a existência deste Órgão e o modo como entendem que ele deve funcionar para garantir a eficácia da sua acção.
Obrigado pelos vossos contributos.
José Cesário
Secretário de Estado das Comunidades
(publicado no Facebook)
Devido aos sucessivos cortes salariais e de subsídios, congelamentos remuneratórios e imposições fiscais, a generalidade dos professores do Ensino de Português no Estrangeiro perdeu mais de um terço do seu salário nos últimos anos, o que faz com que estejam a ganhar ao nível do salário mínimo ou muito próximo disso em alguns países da Europa (que é de 1.900 euros no Luxemburgo ou de cerca de 2.500 francos na Suíça, por exemplo), o que torna cada vez mais difícil fazer face aos elevados custos de vida.
Acresce que esta situação piorou consideravelmente desde o início deste ano devido ao aumento dos descontos sobre a totalidade da massa salarial para a Caixa Geral de Aposentações e agora também devido ao corte do reembolso das despesas de transporte aos professores que dão aulas em várias escolas, quer decorram do uso de viatura própria ou de transporte público, na sequência de um despacho de legalidade duvidosa do Instituto Camões, porque contraria o regime jurídico do EPE. E os professores que estão fora da zona euro sofrem tanto ou mais com a degradação salarial, porque ainda têm de suportar a desvalorização cambial, de que o melhor exemplo é a Suíça.
Convém referir que, enquanto um professor luxemburguês em início de carreira ganha cerca de 4.000 euros mensais, a grande maioria dos professores de Português, estejam no ensino integrado ou no paralelo, estão atualmente a receber cerca de metade daquele valor (2.300 euros para os professores com mais de 15 anos de carreira e 1980 euros para os que têm menos de 15 anos). Esta desvalorização salarial tem a sua origem no facto de as decisões políticas que têm afetado os funcionários públicos não levarem em consideração o elevado custo de vida de certos países onde os funcionários estão ao serviço do Estado, não obstante as situações não serem em nada comparáveis.
Isto significa também que qualquer trabalhador português indiferenciado ganha muito mais que um professor português, que tem qualificações ao nível do ensino superior. Tal situação tem contribuído para uma acentuada desvalorização da imagem e do prestígio dos professores de Português, quer junto da Comunidade portuguesa quer dos seus colegas luxemburgueses, suíços ou franceses, consequentemente, também para a sua desmotivação.
O resultado destas políticas salariais cegas tem-se traduzido num claro aumento das situações de dificuldade para os professores de Português no estrangeiro. Com efeito, há professores que
tiveram de abandonar os seus apartamentos para passar a viver em habitações partilhadas, devido às dificuldades crescentes em pagar as despesas. Inclusivamente, no Luxemburgo, há agências que deixaram de alugar apartamentos a professores portugueses, uma vez que até um modesto T1, que não terá mais de 40 metros quadrados, pode consumir logo cerca de metade do salário.
Se a estas dificuldades se acrescentar o aumento do trabalho dos professores por terem este ano letivo mais várias dezenas de alunos cada um e terem mais níveis de ensino por sala de aula, facilmente se perceberá que a motivação começa a diminuir, para o que também não ajudam as declarações ofensivas do Secretário de Estado das Comunidades, que recentemente pôs em causa a competência e os conhecimentos dos professores numa entrevista ao jornal Gazeta Lusófona, da Suíça.
Seria de elementar justiça, portanto, que o Governo olhasse para as condições em que os professores de Português no estrangeiro se encontram, designadamente porque poderá ter repercussões negativas na qualidade do ensino e até pôr em causa a sua continuidade, criando as condições materiais e financeiras para que o exercício da docência possa ser feito com a dignidade que lhe é devida. E também para evitar que sejam transmitidos sinais errados sobre o valor da Língua Portuguesa que, efetivamente, deve ser valorizada como Língua global, como é amplamente reconhecido.
Assim, ao abrigo das disposições legais e regimentais aplicáveis, solicito ao Senhor Ministro de
Estado e dos Negócios Estrangeiros, que tem a tutela do Ensino do Português no Estrangeiro, os seguintes esclarecimentos:
- Está o Governo disposto a rever a situação salarial dos professores de Português no estrangeiro, de forma a dignificar o exercício da profissão e a criar condições para “defender o uso e promover a difusão internacional da Língua portuguesa”, tal como prevê a Constituição da República Portuguesa no seu artigo 9º alínea f)?
- Está o Governo disposto a rever a decisão altamente penalizadora para os professores do Ensino de Português no Estrangeiro de terem agora de fazer descontos para a Caixa Geral de Aposentações com base na totalidade de massa salarial, bem como de reconsiderar a decisão de eliminar o reembolso das despesas de transporte, evitando assim que se agrave a situação económica dos professores de Português no estrangeiro que atualmente já é bastante precária?
É muito escasso o interesse que a nossa sociedade, as nossas instituições e o Governo dedicam às Comunidades Portuguesas. São cerca de cinco milhões de portugueses, que deveriam merecer a mesma consideração do que os que vivem no país e, assim, beneficiar de políticas públicas sólidas e de uma atenção que infelizmente não têm, como se viver no estrangeiro fosse um fator de desvalorização.
Seja por votarem pouco ou por existir um preconceito relativamente aos emigrantes que se foi cristalizando a seguir às grandes vagas migratórias dos anos 60, a verdade é que há um bloqueio na nossa sociedade que nos impede de estabelecer uma relação normal e saudável com esse imenso país
que vive fora das nossas fronteiras.
A relação com as nossas comunidades é pouco mais que fait-divers e manifesta-se nos pedidos de apoio para a seleção nacional ou nas referências de circunstância nos discursos do 10 de Junho, dedicado precisamente às Comunidades Portuguesas, associadas à Nação e a Camões, que é como quem diz, à nossa identidade e cultura universalista.
O impulso para emigrar e a facilidade com que nos adaptamos e estabelecemos pontes culturais nos locais de destino estão na origem do nosso tão elogiado universalismo e cosmopolitismo, inegavelmente ligados à nossa identidade como povo. Porém, o esforço público de considerar esses milhões de portugueses que anseiam que reparem neles é insignificante, levando a que os residentes no exterior se sintam abandonados e, pior do que isso, se sintam e sejam objetivamente discriminados, quando o que queriam era tão só um gesto de reconhecimento por estarem no estrangeiro, tenham ou não vencido na vida.
Seja como for, milhões de portugueses conseguiram fora do país a estabilidade, o reconhecimento e o estatuto que nunca teriam em Portugal.
Apenas e tão só porque temos sido incapazes de garantir aquele que é o primeiro direito de cada cidadão, que é o de ficar no seu próprio país.
A nível dos governos e das instituições deveria haver sempre o espaço necessário para tratar com empenho as questões relacionadas com os portugueses residentes no exterior. Em vez disso, os Governos fazem sempre votos pios sobre a importância das Comunidades Portuguesas, mas depois só se preocupam com as questões internas. E as Secretarias de Estado das Comunidades, genericamente, mais parecem uma flor na lapela dos Governos para descargo de consciência. A atual Secretaria de Estado
das Comunidades é disso um exemplo claro. Sem recursos e com uma dotação orçamental das mais baixas de sempre, nem sequer pode usar de forma mais justa e robusta as receitas obtidas através dos atos consulares, que vão em grande parte para ações de política externa e outras despesas, através do Fundo para as Relações Internacionais, ficando anualmente as Comunidades apenas com menos de cinco por cento do total.
A verdade é que na cultura reinante no Ministério dos Negócios Estrangeiros, as Comunidades Portuguesas são uma área marginal e distante, como se fossem um fardo e não um domínio em que o Estado tem a obrigação de ter políticas estáveis e consistentes. O que existe é pouco mais que iniciativas avulsas, sem uma estratégia capaz de valorizar as comunidades como efetivamente mereceriam.
E, no entanto, paradoxalmente, não há quem não reconheça o imenso potencial económico, diplomático e cultural das comunidades portuguesas e do seu valioso legado ao longo da História. Infelizmente, ficamo-nos por aí. É por isso que devia ter um fim este distanciamento com que injustamente são encarados cinco milhões de portugueses.
Paulo Pisco
Deputado do PS eleito pelas Comunidades
Algumas notícias referem que o recém eleito papa, Francisco, é técnico químico, outras que tem um mestrado em química, outras, ainda, que é engenheiro químico. Analisando as notícias, a verdade parece ser que se formou numa escola técnica como técnico de química mas, aos 21 anos, resolveu seguir o apelo da fé e tornar-se sacerdote, tendo a sua vida tomado o rumo que o levou a papa.
Pode ser que a formação em química de Jorge Bergoglio tenha influenciado a sua personalidade e modo de encarar o mundo, mas pode também ser o caminho normal de um jovem inteligente, filho de pais com recursos modestos. Só Francisco poderá indicar a importância que a química teve (ou tem) na sua vida. O que parece certo é que a sua eleição está a gerar uma química muito favorável entre os católicos.
Embora não tenham relevância para a definição da sua personalidade e para a esperança que o mundo coloca em Francisco, estas notícias contraditórias espelham a confusão que existe entre química e engenharia química. De facto, da mesma forma que não se confundem farmacêuticos, médicos e enfermeiros, embora todos estejam ligados à saúde, também não se devem confundir engenheiros químicos e químicos, apenas porque ambos estão ligados à química. A química tem como tema as propriedades e transformação dos materiais ao nível das pequenas quantidades. Trata da análise e síntese de materiais que já existem ou participa na invenção de novos materiais (por exemplo, novos medicamentos). A engenharia química é um ramo da engenharia que trata de produzir esses materiais em grandes quantidades, optimizando e controlando os processos industriais. Dito de uma forma mais sucinta: o químico analisa e sintetiza os materiais e as moléculas enquanto o engenheiro químico os produz em larga escala. Claro que há químicos a fazer engenharia química e vice-versa mas isso não é razão se confundirem estas áreas da actividade humana.
As notícias dizem também que Francisco, natural de Buenos Aires, gosta de futebol, música clássica e de Jorge Luís Borges. Vem, por isso, a propósito referir alguns textos de Borges em que se cruzam fé, alquimia e química. Também estas não devem ser confundidas e Borges não o faz. A fé e a alquimia são do domínio do religioso e filosófico enquanto a química é do domínio da ciência e da técnica. Podem complementar-se mas não se excluem.
Há pelo menos dois contos de Borges em que a química aparece sob a forma de leis de conservação. O «Livro de Areia» é infinito e por isso não pode ser queimado porque criaria um fumo infinito que sufocaria a Terra. Também na «Rosa de Paracelso» aparece um enunciado de conservação químico, neste caso associado à alquimia e à fé. Trata-se de um conto que, evoca, na minha opinião, uma das mais profundas parábolas da Bíblia sobre a Fé e os milagres.
Um candidato a discípulo faz uma longa jornada para encontrar Paracelso. Vê os seus alambiques cheios de pó e as fornalhas apagadas. Pergunta pela rosa e Paracelso admoesta-o por ser crédulo. Exige fé ao candidato mas este espera provas. Paracelso diz-lhe que o milagre não lhe trará a Fé. Atirada a rosa ao fogo, o candidato vê apenas cinza. Afinal, diz Paracelso, «a rosa é eterna, só a sua forma muda». Os átomos da rosa não desaparecem quando esta se decompõe ou arde, apenas mudam para outros arranjos moleculares, formando novas substâncias. O candidato a discípulo julga perceber, deixa de ser crédulo mas continua sem Fé. E parte sem esperar pelo renascimento da rosa a partir das cinzas.
Sérgio Rodrigues (Professor Departamento de Química UC)